Antártica - Eu estive lá

Por que Antártica?

Nos últimos anos, o continente antártico tem sido alvo das mais importantes reportagens sobre mudanças climáticas globais. Devemos realmente nos preocupar com um continente tão longe de nossa casa, praticamente inabitado, alvo apenas de pesquisas científicas? Não é à toa que muitos países, inclusive o Brasil, investem em pesquisa no continente antártico e nas águas que o circundam. Este lugar fornece importantes informações para os cientistas sobre a questão do aquecimento global e muitas outras sobre o funcionamento atual e passado dos oceanos e atmosfera. Algumas respostas para estas questões estamos tentando descobrir através do projeto FOODBANCS, que é financiado pela NSF (National Science Foundation, USA) com apoio da USAP (US Antarctic Program) e que conta com a participação de pesquisadores da Universidade do Hawaii, Universidade da Carolina do Norte e Universidade de São Paulo.
O ponto de partida do nosso cruzeiro oceanográfico foi a cidade de Punta Arenas, no Estreito de Magalhães, conhecida como a cidade mais austral do Chile. Nosso navio, o R/V Laurence M. Gould, se destacava entre as embarcações atracadas no porto: um quebra-gelo (Classe gelo ABS A1) de 76 m de extensão, desenhado para operações multi-disciplinares de pesquisa, capaz de acomodar 26 cientistas para missões de até 75 dias. Foi a primeira vez que entrei em um navio dessa dimensão e ainda me perdia pelos corredores nos primeiros dias. Depois de experimentar nossas roupas de frio, arrumar e amarrar todo o material e equipamentos nos laboratórios do navio e passar por um treinamento de segurança, estávamos prontos para encarar a Passagem de Drake. Partimos no início do dia 15 de fevereiro em direção ao Continente Branco. A Antártica ainda parecia algo muito distante, mas, sem saber, meu sonho já estava se realizando.
Os três dias e meio de viagem, entre Punta Arenas e a nossa primeira parada na ilha Rei George, foram tranqüilos e passamos arrumando laboratórios, dividindo tarefas e turnos de trabalho, aprendendo a fazer nós e discutindo o projeto. A passagem de Drake nos surpreendeu com tempo bom e mar calmo, e as histórias de Amyr Klink agora tinham imagens reais! A paisagem que se movia na moldura redonda da escotilha foi a minha primeira impressão da Antártica: icebergs, montanhas e gelo, como uma pintura de poucas cores, porém, a mais impressionante que já vi, onde a divisão entre gelo e céu nem sempre era muito clara. Estávamos navegando na baía Maxwell, entre a ilha Rei George a ilha Nelson e pudemos avistar as estações de pesquisa da Rússia (Bellingshausen) e do Chile (Frei). Descarregamos suprimentos e depois seguimos para a baía do Almirantado, onde nos comunicamos com a estação brasileira (Comandante Ferraz), perguntando por nossos amigos. Nossa parada foi em uma pequeno refúgio americano, chamado Copa, onde poucos pesquisadores passam os meses mais quentes estudando aves e pingüins. Descarregamos suprimentos, madeira e gás e, em seguida, fomos “explorar” o local. Vi tantas coisas diferentes em tão pouco tempo! Aves que nunca tinha visto, como as skuas, petréis, pingüins; uma vegetação incrivelmente colorida, formada apenas por musgos, liquens e gramíneas; e uma geleira estacionada na praia. Foi incrível! O frio de 2˚C, o vento que rasgava o rosto, a calça molhada, o pé mais que gelado...nada importava. Estavam todos hipnotizados, empolgados e ansiosos para continuar a viagem, pensando no que viria pela frente!
Seguimos rumo ao sul, passamos perto da ilha Deception, estreito de Gerlache e navegamos pelo canal de Neumayer, contornando a ilha Anvers, onde está localizada uma das estações de pesquisa dos Estados Unidos, a estação Palmer. Enquanto os containers de suprimentos iam sendo lentamente descarregados, fomos conhecer a estação, seus arredores e subir até o topo de uma imensa geleira, que abraça a estação, de onde podíamos avistar o navio, que se dissolvia na imensidão branca e azul escura da paisagem. Pesquisadores de outros projetos desembarcaram em Palmer para realizarem suas pesquisas em áreas mais rasas.
No dia seguinte, seguimos adiante para nosso primeiro ponto de coleta, que consiste em um local, determinado por nós, onde lançamos nossos equipamentos e coletamos material para estudo. Nesta etapa do projeto, determinamos 5 locais de coleta com cerca de 600 metros de profundidade, onde permanecemos cerca de 3 dias em cada um. Nós estávamos em 16 pesquisadores, divididos em dois grupos que se revezavam a cada 12 horas.
Durante nosso trabalho, tivemos alguns dias de tempo ruim, com ventos fortes, chuva, neve e mar bastante agitado, em que não podíamos lançar nossos equipamentos e o trabalho nos laboratórios era difícil. Esperávamos o tempo melhorar e o mar acalmar, mas em uma das estações decidimos partir e utilizar nosso tempo navegando até o próximo ponto.

   Os imprevistos foram sempre superados com trabalho árduo para recuperarmos o tempo e, por fim, terminar nosso trabalho dentro do prazo. Éramos recompensados com paisagens de cadeias de montanhas no nosso horizonte, baleias borrifando água ao nosso redor e o nascer e o pôr-do-sol, a cada dia mais bonitos.
Quase ao fim de nossas coletas, começamos um novo trabalho, a pedido de professores de outro projeto: o de coletar rochas! Havia poucos especialistas em geologia a bordo, mas contávamos com protocolos minuciosos e mapas de onde encontrá-las. Para mim, foi uma parte inesperada da viagem e uma oportunidade única de pisar no continente antártico, deslumbrar com a paisagem estonteante da baía Marguerite e conhecer novos lugares, como a estação inglesa Rothera, na ilha Adelaide. Em uma região rasa, próxima à estação argentina San Martín, testamos nosso ROV (Veículo Operado Remotamente), um robô que fornece imagens em tempo real e possui uma garra e uma rede para coletar organismos, tudo controlado por um joystick, como em um video-game.
No último dia de coleta, um friozinho na barriga, um sentimento de que tudo já estava acabando e a volta para casa se aproximando. Na última parada, em Palmer, fomos visitar os elefantes marinhos que descansavam sobre as rochas.
Como de costume entre os navios de pesquisa que ultrapassam algum limite importante, como o Equador, trópicos, meridiano de Greenwich, e, no nosso caso, o Círculo Polar Antártico, os pesquisadores que ainda não o haviam ultrapassado passaram por uma cerimônia. Nosso castigo: entreter Netuno, o Rei dos Mares! Afinal de contas, ultrapassamos o Círculo sem pedir permissão. Montamos um teatro, mostrando de forma irreverente o nosso trabalho para Netuno e sua corte marcial, ou seja, para os que já haviam passado pela cerimônia e encenavam estes papéis. Todos gostaram, mas não nos pouparam da lama e da água fria!
Nossa volta foi bem divertida e a passagem pelo Drake novamente tranqüila. Em terra, nosso trabalho, então, era despachar todas as nossas amostras para as universidades.
Voltei para casa com uma bagagem enorme que, mesmo cansada, carregaria quantas vezes fossem preciso: muitas experiências, conhecimentos, novos amigos e a sensação de que acabava de voltar de um mundo completamente diferente, um mundo que devemos zelar para as gerações futuras, para novas pesquisas e novas descobertas!

 

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